NA COZINHA DE HILDA EM NATAL
Outubro de 2006
Como descrever algo tão simples e tão pleno de fidalguia?
A cozinha de Hilda é clara, luminosa, digna e limpa. Eu diria até imaculada.
Na cozinha de Hilda matei minha fome terrena e um pouco da eterna fome espiritual.
Ali, gula e pecado são apenas palavras sem significado.
Linda cozinha! Linda Hilda!
Ao entrar, logo percebi que aquele era o principal lugar da casa: móveis brancos, geladeira nova e reluzente, fogão próximo à pia como manda o figurino; mesa redonda forrada com toalha vermelha de crochê, feita por Hilda. Sobre a toalha, protegendo-a, outra de plástico transparente.
Nosso almoço foi simples. Via-se que Hilda pusera seus melhores pratos, copos e talheres, mas sem afetação. Havia bife de panela com batatas, arroz branco com pedacinhos de cenoura, uma salada de alface e tomate, mais um feijão mulatinho com paio e carne-seca. Tudo caseiro, saboroso, santificado.
Para beber, suco de caju, água gelada e do filtro, e um conhecido refrigerante “do mal” que no entanto, naquela cozinha, tornou-se também puro e abençoado.
E Hilda, quem é Hilda?
Hilda é baiana do interior, simples, pousada, séria e contida. Sorri pouco, sem ser antipática. É o seu feitio, seu jeito de ser.
É ativa e fala pouco, mas gosta de ouvir e, às vezes, de conversar.
Quando Hilda fala é bom ouvi-la. As palavras são comedidas e se revestem daquela mesma inteireza, sua marca principal.
Mostrou-me as fotos de casamento. Lá estava ela aos dezessete para dezoito, tal como é hoje, 25 anos depois: séria, semblante preocupado, olhar tristonho.
No entanto, me pareceu leve no vestido branco despojado de enfeites, a grinalda de flor-de-laranjeira e o véu curtinho.
Na verdade, Hilda é leve, em todos os sentidos. Talvez por ser pequena e magra, calma, os gestos mansos e a fala sábia.
Ficarei muito honrada se, um dia, puder ser amiga de Hilda.
Texto de Marília Ludgero.

By Jucele
Julio Leal
2021
Valeu.
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Marília: filha de peixe, peixinha é! Beijo e bom dia!
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