WM DA APOSTILA DO MESTRE ERNESTO DOS SANTOS: CAPÍTULO III, PARTE I.

CAPÍTULO III

O W-M

     Até 1925 esteve o Sistema Clássico em pleno apogeu. As defesas sempre explorando a velha Lei do Impedimento, e de tal forma, – como, aliás, já salientamos – eram tão eficientes neste particular que já se tornara difícil a obtenção dos goals. A vantagem das defesas sôbre os ataques era manifesta, e, como em futebol, o goal é o maior objetivo de atração, entenderam os legisladores da Internationa Board de, mais uma vez modificar as Leis em benefício das ofensivas, para que, assim, voltassem estas a obter vantagens e manter o maior atrativo do jôgo. De fato, em junho de 1925, os representantes das Associações Inglesa, Escocesa, Irlandesa e do País de Gales, que eram os únicos componentes daquele órgão legislativo, entenderam de, em sua reunião anual, modificar a famosa Lei. Diminuíram de três, para dois sòmente, o número de adversários que o jogador deve ter entre si e a linha de fundo do campo do oponente, para se encontrar em posição legal, ao lhe ser passada a bola, é claro.

EVOLUÇÃO NO FUTEBOL

     Isto, parecendo à primeira vista uma coisa simples, teve a tal repercussão nos meios futebolísticos, teve tal influência na tática do jôgo, revolucionou de tal modo os velhos conceitos de “position play” (jôgo de posição), a ponto dos ingleses considerarem esta resolução da International Board e a data de 14 de junho de 1925, como um verdadeiro marco na história do jôgo, dividindo o futebol antigo (the Old game) do futebol moderno (the Modern Game).

     Efetivamente, os ataques passaram a gozar de uma liberdade surpreendente, livrando-se quasi que completamente do velho recurso das defesas de colocar o atacante em impedimento e que, como já dissemos, no capítulo anterior, era o único plano tático das defesas de então, em que a marcação rigorosa ao homem não existia.

     Modificaram-se os ataques para desfrutar esta liberdade. E modificaram-se de imediato, as defesas tentando anular esta liberdade e manter o velho recurso tático. Mas o problema se apresentou de tal forma complexo, que só os anos e a longa experiência foram capazes de resolvê-lo.

E SURGE O W-M

     Vimos no capítulo anterior, que as linhas de ataque jogavam, até então, numa linha paralela à de fundo do campo, impedidos os jogadores de se aprofundarem no terreno adversário pelo risco de se colocarem em impedimento e, assim, anularem todo o trabalho de sua equipe. Ora, sentindo-se garantidos pela nova lei, três dos componentes das linhas de frente – os extremas e o centro – passaram a se aprofundar na defesa adversária, ficando atrás os dois meias.  

     É natural que se pergunte porque não aprofundaram os cinco atacantes, já que todos êles se beneficiavam da vantagem. Mas se analisarmos o caso, verificaremos, logo, que nenhuma vantagem traria no momento. Senão, vejamos. O adiantamento dos dois ataques completos, no campo do adversário, traria, como reação natural, o retraímento das defesas, para seu próprio campo defensivo. Ora, a consequência seria que em cada lado do campo, iríamos ter um grande agrupamento de jogadores, composto, cada um dêles, por tôda uma defesa e todo um ataque adversários. E, no meio do campo, é claro, ficaria um espaço vazio, uma “terra de ninguém”, separando completamente os dois setores de cada equipe.

     Isto seria totalmente contraproducente porque, entre as várias linhas ou setores de uma equipe, não pode haver soluções de continuidade, isto é, espaços vazios. Tôdas elas devem estar harmoniosamente entrosadas; para que a equipe possa trabalhar coesa, como um todo.  Aliás, não sendo assim, nunca será uma equipe, na acepção do termo.

     Foram, portanto, mantidos os dois meias que passaram a fazer a ligação entre o setor defensivo e a primeira frente do ataque, representados como vimos, pelo centro e os pontas. E esta colocação dos três à frente dos dois meias mais atrás, deu ao ataque uma formação com justeza, logo batizada de “formação em W”, que nenhuma restrição encontrou por parte dos entendidos e que até hoje, tem sido explorada eficientemente, ou na sua forma pura, ou como ponto de partida para as mais variadas estratégias.  A formação mostra claramente como os ataques, partindo da formação chegaram ao W; e a só a visualização  nos dá uma idéia exagerada, para maior facilidade de compreensão, do que seriam as equipes em campo, se os dois ataques se aprofundassem completos, na tentativa de todos os jogadores se aproveitarem da liberdade concedida pela nova Lei do Impedimento.

OS ZAGUEIROS MUDAM DE POSIÇÃO

     É claro que estas modificações no ataque não deixaram impassíveis as defesas. Estas se viram em face de uma nova situação para a qual não estavam preparadas, de modo que tivera de – enfrentar, o período de transição que então se iniciou, e que, na própria Inglaterra, durou pelo menos até que Herbert Chapman, em 1932, graças aos extraordinários feitos do Arsenal F.C. de Londres, firmou definitivamente, a nova tática de jôgo, no setor defensivo, confirmando o velho dogma que diz: “ Um novo sistema defensivo é sempre uma resposta a um novo sistema ofensivo”.

     Inicialmente, portanto, já que a nova Lei do Impedimento tornava os velhos recursos insuficientes, os dois zagueiros abandonaram a velha colocação de “ um na frente e outro atrás”, para jogarem lado a lado, claramente, zagueiro direito e zagueiro esquerdo, numa linha paralela à linha de fundo do campo. Tomaram, assim, a verdadeira posição em que sempre foram apresentados nos esquemas do “Sistema Clássico”.

     Deste modo, alargando sua frente defensiva, opunham êles melhor resistência às linhas ofensivas dos adversários e, com o adiantamento do zagueiro de trás, para uma posição lateral, e o ligeiro recuo do da frente para o lado oposto, procuravam os dois manter ainda, as vantagens da tática do impedimento, coisa que, aliás, foi conservada até hoje no futebol europeu, especialmente no inglês. Êste recuso, que podemos analisar, visualizando – estava longe, entretanto, de representar a solução para o problema.

OS MÉDIOS

     Os médios de ala continuavam abertos, longe ainda da marcação de homem para homem. Todavia, como os extremas iam se tornando cada vez mais agressivos, foram êles aos poucos, se aproximando mais dos homens a quem, de uma maneira muito mais teórica do que prática, sempre lhes coube marcar. E, ao fazê-lo, foram recuando no terreno, chegando quasi que à mesma linha dos zagueiros. A consequência disto foi que as defesas tiveram atrás um bloco defensivo composto pelos 2 médios e os dois zagueiros. Mas na linha média, o centro médio entre os dois meias adversários, ficava numa situação de absoluta inferioridade.

     Êste centro médio, como é natural, e tendo seus próprios meias vindo um pouco para trás, foi passando para êstes parte de suas atribuições no trabalho de ligação. Assim sendo, êle foi se retraindo também, e, embora muito longe ainda de um trabalho puramente defensivo, deixou, em compensação de ser aquele homem que corria o campo todo e que era muito mais um sexto atacante que, propriamente, elemento defensivo.

     Imaginar esta situação nos ajuda a analisar o estado de coisas, a esta altura da situação. Vemos claramente que a extrema defesa era poderosa com os médios e zagueiros quasi em linha. Mas, na meia defesa, a situação de inferioridade era flagrante. Vejamos a causa.

     Seguindo o velho conceito, quem marcava os meias eram os zagueiros. Ora, com os meias recuados, como poderiam os zagueiros marcá-los? Como poderiam os zagueiros, cuja função principal era e será sempre a guarda da “área de backs”, ir ao encontro daqueles, lá no meio do campo? Não o podiam fazer. Continuaram em sua área, e o resultado disso foi que o centro médio ficou isolado entre os dois meias adversários que tinham, assim, um terreno amplo para trabalhar e logo começaram a desenvolver o jogo de meia para meia que arrasava as defesas de então.

     A situação era insustentável para as defesas. E, aos poucos, foi-se descobrindo que a melhor solução trazer os médios de ala para junto dos meias e dar aos zagueiros a incumbência de cuidar dos pontas quando o ataque viesse por seu lado.

     Esta solução, que nós podemos visualizar, não chegou de imediato e só o tempo e a experiência é que a aconselharam. Mas, o grande problema ainda não estava resolvido, como veremos:

CONTINUA O DESEQUILÍBRIO

     Vejamos, agora, o que resultou do deslocamento, acima descrito, dos zagueiros e dos médios, no sentido de encontrarem em campo, uma colocação mais compatível com as necessidades do momento, provocadas pelo ataque em W.

     O centro-médio que, dissemos, já não corria o campo todo, pelo visto que isto se tornou desnecessário, pelo recuo dos meias, era ainda um jogador que se lançava de preferência ao ataque e que, pouquíssima ou nenhuma ajuda dava os seus zagueiros, quando seu próprio quadro era atacado. A sua dita marcação ao centro-avante continuava, longe da realidade, pois, raras vêzes, no decorrer de uma partida, êstes dois jogadores entravam em contato.

     Ora, com a ida dos médios de ala para junto dos meias adversários, o setor de Meia da defesa, representado por tôda a linha média, passou a constituir, nesta fase de transição, uma fôrça poderosa que impulsionava os seus ataques para a frente e que, com êstes, se lançava, frequentemente, pelo campo adversário. Lutavam três médios contra os dois meias adversários, com evidente superioridade numérica, e, por isso, porque esta superioridade na meia defesa lhes permitia dar um constante apôio ao setor ofensivo, eram as equipes de então, fortes no ataque, mas, por outro lado, deficientes na extrema defesa.

     Nestas, o desequilíbrio beneficiava os ataques. Eram três – centro e os dois extremas – contra dois, sòmente, os zagueiros

O RODÍZIO DOS ZAGUEIROS

Chegamos, assim, à conclusão de que os quadros de então, sendo poderosos ao se lançarem ao ataque, pecavam, entretanto, no setor de extrema defesa. Isto, particularmente, quando, em face de um contra-ataque adversário, os próprios médios, tendo ido para a frente, preocupados em apoiar o ataque, não voltavam com a devida presteza e deixavam seus zagueiros sobrecarregadíssimos. Êste fato, tornando as defesas extremamente vulneráveis, deixava os técnicos em desespêro.

     Como já sabemos, os zagueiros tinham passado a cuidar dos pontas, quando o ataque vinha pelo seu lado. Mas, sempre que o ataque vinha pelo lado oposto, o zagueiro tinha de fazer a cobertura do meio de campo, cuidando, nesta emergência, do centro atacante adversário.

     Apenas imaginando, nós exemplificamos esta manobra. Se o ataque se verificava pela ala esquerda adversária, o zagueiro direito, no. 2, ia à marcação do ponta (11), enquanto o zagueiro esquerdo (3), vinha para o centro marcar o centro-atacante. Mas, se o jôgo vinha pelo lado contrário, o zagueiro esquerdo (3) ia à marcação do ponta (7). Enquanto o zagueiro (2), do outro lado, vinha cobrir o centro. A movimentação do ataque pela esquerda é explicada, num gráfico, pela seta firme, enquanto o ataque pela direita, corresponde à seta pontilhada.

     Esta movimentação, fácil à primeira vista, tornava-se realmente difícil, se o ataque progredia em jôgo cruzado, mudando a bola rapidamente de um para outro lado do campo. Nesta emergência, os zagueiros entravam em um trabalho de vai e vem, para conter o centro, ora para a ponta e, apesar disso, apesar dêsses corre corre para um lado e para o outro, sempre um ponta se encontrava livre. E, o que é pior, os centro-atacantes, também, ficavam livres frequentemente, pois, com o jôgo de meia para meia, que então, estava no seu apogeu, os zagueiros, por melhor que fizessem sua manobra, acabavam sempre deixando um buraco no meio de campo, um verdadeiro corredor por onde os centro-atacantes, da época, se infiltravam.

OS INFILTRADORES

     Esta facilidade em romper a última linha de defesa, facilidade decorrente, – como já vimos, – da vantagem numérica que, a esta altura dos acontecimentos beneficiava os ataques, chegou a criar uma nova escola de centro-atacantes, os “ infiltradores” como foram chamados na Argentina. Stabile, o atual técnico da seleção daquele País, foi o melhor exemplo dessa Escola. E aqui tivemos Petronilho, Waldemar de Brito, Leonidas e outros.

     Visualizar a figura dá, também, uma idéia da forma como manobrava os ataques. Sabemos já que a marcação estava muito longe do que é hoje, de modo que os meias, recuando um pouco, tinha tôda a facilidade em recolher a bola. Começavam, então, o jogo de cruzamento entre um e outo meia o que obrigava os dois zagueiros a andarem para um lado ou para o outro, de acôrdo com o lado do campo onde se encontrava a bola. Após meia dúzia de passes entre os meias, surgia, então o passe em profundidade, “no buraco” de acôrdo com a terminologia popular, e lá partia, velozmente o entro-atacante, deslizando entre os zagueiros e pondo a defesa em polvorosa. Foi a época dos centro-atacantes goleadores. E não era preciso possuírem as qualidades maravilhosas dos três citados acima. Muitos houve que, apenas por serem impetuosos e fortes, conseguiram se tornar sensações. O modo de jogar das defesas e o bom trabalho dos meias tornava isto possível.

EM BUSCA DA SOLUÇÃO

     A situação era premente e, para ela, necessário se ENCONTRAR SOLUÇÃO. Os técnicos ingleses, com Herbert Champman à frente, conseguiram, depois de muitas experiências e fracassos, resolver o problema, justamente com o jogador de defesa que, apenas teoricamente, é verdade, fôra sempre tido como o marcador do centro-atacante – o Centro-médio.

     O falecido “manager” do Arsenal, embora não fosse êle o seu idealizador, já antes de ser contratado pelo conhecido clube londrino, havia tentado no Huddersfield Town, de onde viera, a mesma solução. Mas, só em seu novo clube, com os jogadores de que precisava, conseguiu o sucesso definitivo, que se traduziu por uma série de três campeonatos na English League, e uma vitória na Football Association Challenge Cup Competition (que nós conhecemos simplesmente por Taça da Inglaterra).

     Passou, assim, o jogador no 5 das equipes, o centro-médio, à jogar entre os zagueiro, numa função exclusivamente defensiva, de “terceiro back” ou “stopper”, como diziam os inglêzes. Talvez, pela primeira vez na história do futebol, tomou, então, um real contato com o atacante do qual sempre fôra tido como marcador. E, mais, deixou o centro-médio de ser o homem do campo todo, limitando-se a uma função de menor brilho pessoa, mas, de uma importância definitiva para a equipe, já que, como se pode ver, também imaginando o diagrama, o equilíbrio ficou estabelecido entre defesa e ataque, nos dois setores defensivos, isto é, na meia e na extrema defesa. Em primeiro, como vemos, passou a ser de dois contra dois, e no segundo de três contra três.

Fim da primeira parte do Capítulo 3

     Observações de Julio Leal: este relato nos propõe soluções para os problemas táticos que aparecem de quando em vez.

     Para toda problemática há uma solucionática: como dizia Dario, o Dadá Maravilha (que se proclamava um dos três que paravam no ar: helicóptero, Beija-Flor e Dadá), dos maiores artilheiros do Futebol e Campeão do Mundo em 1970.

     Mas aquele que cria, inventa, soluciona primeiro, é que entra para a História, como Herbert Chapman, Rinus Michels e Mario Jorge Lobo Zagallo, dentre outros.

     Delícia de exercício explicar cada Sistema e a Evolução para o seguinte, teoricamente, e depois executar com os jogadores na prática, esses mais antigos, e principalmente os mais novos, jogando um time com o mais antigo, e a outra com o novo, e deixá-los analisar depois do experimento.

Lembrando que a Ortografia e a Gramática são coo estão na Apostila do Mestre Ernesto, precisas, e como se usava à época!

E SURGIU O W-M

A seguir… O Brasil começa a criar: DIAGONAL

2 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de jlcleal jlcleal disse:

    Excelente. Fundamental para que o futebol se desenvolvesse em alto nível noBrasil. Alto nível de formação de treinadores (Técnicos de Futebol). Valeu.

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    1. Avatar de Julio Cesar Leal Julio Cesar Leal disse:

      A partir daí começamos a interferir no futebol com a derivação do WM chamada de diagonal. E com razões boas! Beijo

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