COPA DO MUNDO – 98. CAPÍTULO XI. FUTEBOL ARTE E OFÍCIO – DA ARTE

CAPÍTULO XI

COPA DO MUNDO DE 1998

(Breve abordagem)

    Nas fases iniciais da competição, não se viu a utilização de Sistemas de Jogo mais evoluídos do que os apresentados nas Copas anteriores, seguindo a natural tendência de diminuição do número de atacantes e o aumento do número de jogadores com características de meiocampistas, superpovoando o setor intermediário e criando à frente os espaços para penetração, ultimamente em voga.

    Primeira Copa, com 32 participantes, maior o desequilíbrio entre as potências futebolísticas. Jogando os grandes como cabeças de chave contra os terceiros e quartos de cada grupo, não se tem o equilíbrio de forças que leva necessariamente à utilização do sistema mais evoluído e moderno. Comprovadamente, uma equipe de nível superior pode vencer apenas pela qualidade dos seus jogadores, até mesmo utilizando-se de sistemas ultrapassados ou por demais ofensivos. A evolução, naturalmente, advém da semelhança de nível técnico, da igualdade de potencial das equipes, e das adversidades que obrigam a busca de novos caminhos.

    O sistema G – 4 – 4 – 2 foi  o mais utilizado durante a Copa, sendo, na maioria dos casos, os 2 (dois) atacantes bem característicos. Verdade que esse sistema foi apresentado sob as mais variadas configurações, mas considerando prioritariamente características singulares dos jogadores ou seu posicionamento em campo.

    Na busca de maior ofensividade, na primeira fase da competição, além dos 2 (dois) atacantes, as equipes, geralmente, apresentaram pelo menos um meia de características marcantementes ofensivas, jogando quase como um terceiro atacante: Rivaldo (Brasil), Bergkamp (Holanda), Zidane (França), Okosha (Nigéria), Boban (Croácia), Laudrup (Dinamarca).

    O fator mais importante observado nesta Copa, sob o ponto de vista da sistematização tática, foi o leque de sistemas que algumas das melhores equipes apresentaram dentro da competição, como Holanda, França, Dinamarca e Argentina. Além da concepção básica, em quase todas, o 4 – 4- 2, mostraram-se preparadas e capacitadas para variar dentro da mesma partida ou de uma partida para a outra, de acordo com as necessidades, características da partida e peculiaridades dos oponentes.

    Vale observar que, além da utilização do 4 – 4 – 2 nas fases iniciais, o que se viu nas partidas de maior equilíbrio e sobretudo nas fases finais foi a utilização de apenas um atacante  à frente, como no caso da França que jogou  a competição em 4 – 4- 2 e a todos surpreendeu na final com a utilização do 4 – 5 – 1, mantendo à frente apenas Guivach,  entrando Kamembeau, (características de meia) no lugar de Henry (verdadeiro atacante, artilheiro da equipe até então) com o objetivo de dominar o meiocampo e evitar a subida dos laterais brasileiros.

    Na partida semifinal, a Dinamarca já se valera do mesmo estratagema, deixando na frente Jorgensen e trabalhando com Michael Laudrup como meia pela direita para marcar os avanços do Roberto Carlos.

    De destacar, a impressionante capacidade de alternar sistemas das equipes da Dinamarca e da Holanda, de jogo para jogo e até na mesma partida.

    Além da capacidade de alternância dos sistemas conhecidos: 4 – 3 – 3, 4 – 4- 2, 4 – 5 – 1, 3 – 4 – 3, 3 – 5 – 2 / 3 – 6 – 1, e raramente o 4 – 6 – zero, a Copa distinguiu-se pela cada vez maior mobilidade dos jogadores, o aperfeiçoamento das funções e, no desenvolvimento das jogadas provenientes de bola fora de jogo (faltas, pênaltis, córneres, arremessos laterais), de que resultaram muitos e decisivos gols.

    Quanto às formas de marcação não houve qualquer novidade, sendo utilizada, na maioria, a marcação por zona, variando com a marcação mista, e cuidados individualizados especiais com os meias mais criativos.

    Raramente se utilizou a marcação no campo todo, mesmo com o resultado adverso. Quase sempre se utilizou a marcação no próprio campo, às vezes iniciada na cabeça do grande círculo.

    Disputada num período em que os jogadores, na maioria, deveriam estar de férias, no recesso da fase transitória após a temporada em competição, o nível de aptidão física não foi dos melhores e deixou a desejar. Até mesmo jogadores com exemplar desempenho, no decurso da temporada, ficaram abaixo do rendimento ideal, afetando, sobremaneira, a intensidade e o ritmo que se poderiam esperar das disputas.

    Em decorrência disso, o nível técnico da competição como um todo, não pôde ser tido como elevado, mas apenas como razoável, no nosso modo de entender. Sensível a tendência da utilização de jogadores capazes de bem executar todos os fundamentos nos três setores do campo, além da visível preocupação com volantes e zagueiros de bom nível técnico e capacidade de jogar.

    Não houve grandes destaques individuais que sobressaíssem com fulgor, a exemplo das Copas anteriores. Por outro lado, estiveram abaixo do seu potencial verdadeiras “estrelas” que não conseguiram refulgir, confirmando, na hora mais importante, o seu valor.   

O BRASIL NA COPA

    A estratégia geral de preparação estabelecida para o Copa de 98, inesperadamente acabou por limitar nossas possibilidades de chegar ao pentacampeonato, segundo viemos a sentir, a destempo.

    Conquistada a Copa de 94 com um futebol eficiente, mas acoimado de “jogo feio”, de “jogo de resultados”, sem a plasticidade de que o brasileiro tanto gosta, “jogo bonito”, que às vezes, nos rouba importantes títulos, buscou-se uma renovação a mais profunda possível, investindo-se na formação de uma forte Seleção Pré-Olímpica, enfim classificada para Atlanta 96, para tentar o cobiçado “OURO OLÍMPICO” e que viria a formar a base da futura Seleção para a Copa em 98 considerando que até 3 (três) jogadores maiores de 23 anos poderiam ser utilizados na equipe olímpica.

    Assim, passou-se a fazer um laboratório, com a convocação e observação de mais de uma centena de jogadores visando à Seleção Olímpica e, posteriormente, à Principal, uma vez que o Brasil, por ser o campeão já classificado para a fase final, não disputaria eliminatórias. Quando das convocações para a Seleção Principal, desde logo jogadores que formaram a base de 94 (campeã) ficaram de fora: Jorginho, Marcio Santos, Branco, Mauro Silva, Mazinho, Zetti, Gilmar, Zinho, Raí, …

    Como a participação na Olimpíada deixou a desejar, seja no plano individual, no técnico-tático e no resultado, o ensejo levou, já há dois anos da Copa 98, à reconsideração da estratégia, e então alguns jogadores voltaram a fazer parte dos planos.

    Por fim, às vésperas da Copa do Mundo na França, jogadores já considerados fora da seleção, descartados por seus fracos desempenhos, sequer relacionados nas últimas convocações, tornaram-se de novo, titulares, pelas suas boas apresentações na Europa.

    Então, em face da alteração nos planos estratégicos, movida pela série de injunções que se impuseram, os 4 (quatro) anos para preparação, na prática, não permitiram que o time chegasse à competição em boas condições de entrosamento e aperfeiçoamento. Os jogadores do exterior chegaram muito próximo da realização da Copa, com exíguo tempo para a preparação, em face da sua tardia liberação pelos clubes de origem, agravada pelas insatisfatórias condições atléticas que detinham. Tivesse o Brasil de disputar as eliminatórias, tudo seria muito diferente nesses aspectos.

    Houve visível evolução individual e coletiva durante a competição, utilizando-se apenas a sistematização básica. Somente uma tentativa de alteração tática foi efetuada, a do jogo com a Noruega, que perdemos quando a derrota não tinha qualquer influência na classificação. A possível utilização, então aventada, de um time reserva, ou de poupar alguns dos titulares, que se sabia em condições menos satisfatórias, seriam medidas oportunas e de bom alvitre que, todavia, viria à luz tão somente a posteriori, consumado o fato, irreversivelmente. Durante as partidas, a entrada de Denílson em lugar de Bebeto, e de Emerson no de Leonardo, alteravam o desenho tático, mas não o Sistema, mesmo que com vantagens, por vezes. Assim sendo, foi possível aos nossos adversários, por suas observações, se prepararem com maiores possibilidades de êxito, dada a previsibilidade de atuação da nossa equipe, muito embora nossos jogadores possuam inatas e ilimitadas qualidades de improvisação.

    Mantida a base campeã de 94, (ainda no terreno da especulação), à semelhança do ocorrido em 58, mesmo com média de idade mais elevada, partir-se-ia de um conjunto vitorioso e entrosado. Aos jogadores dessa base, mantidos os titulares e os reservas mais úteis, integrar-se-iam as revelações pós-tetracampeonato, e aqueles que se destacassem na Seleção Pré e Olímpica. No desenvolvimento do trabalho, sem perda do conjunto, fator de importância vital, novos jogadores à medida que superassem os campeões, os substituiriam, permitindo, inclusive, experimentações quanto ao desenho tático e à sistematização ao gosto do Treinador e do povo brasileiro. Não poucos defendiam a adoção desse procedimento, entre os quais o autor deste livro.

    De qualquer forma, toda essa elucubração meramente hipotética e tardia, se fragiliza e perde o sentido, ante o episódio do controvertido e não muito bem explicado mal súbito do Atleta Ronaldo, que teria afetado seriamente toda a equipe. Inverossímil, a má apresentação da Seleção, quer como um todo, quer individualmente, na partida final. Difícil de entender o desencontro e a apatia demonstrados ao longo do jogo com a França. Daí o surgimento de boatos em série, estapafúrdios e altamente difamatórios, até, como o de “entrega do jogo” por favorecimento para o Brasil sediar a Copa/2002, com distribuição de altas somas para todos os integrantes da Delegação, mediante “pacto de silêncio”; o de “drogas estupefacientes” adicionadas à refeição dos jogadores com a participação do cozinheiro marroquino insatisfeito com a derrota do Brasil para a Noruega, que desclassificou Marrocos; inclusive, alguns tão ao gosto do povo, de cunho sobrenatural, de eficientes “trabalhos”, de bruxaria, magia negra, em que seriam mestres os franceses, cujos efeitos fizeram adormecer, entorpeceram e paralisaram os nossos jogadores.

Jogando em condições normais, conseguir o agora adiado para 2002 “sonho do penta”, seria o natural desfecho da Copa do Mundo de 1998.

    Único tetracampeão, medalha de prata, primeiro do mundo no “ranking” da FIFA e com o eleito melhor jogador do mundial, Ronaldo, não está tão mal. É de bom tamanho. Conformemo-nos! Assim estava escrito. MAKTUB!

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