FUTEBOL ARTE E OFÍCIO – DA ARTE CAPÍTULO IV – PRINCÍPIOS DE ATAQUE E DEFESA

 CAPÍTULO IV

PRINCÍPIOS DE DEFESA

    Defender é a arte de fechar espaços, diríamos sem receio de errar.

    O maior ou menor êxito na missão de defender depende de que certos princípios básicos sejam seguidos. Os jogadores, de modo geral, seguem por instinto, intuitivamente, tais princípios. Contudo, para segui-los corretamente, sempre que a oportunidade aparecer, necessário conhecê-los plena e pormenorizadamente, vivenciá-los.

A defesa começa quando termina o ataque, e vice–versa.

A melhor defesa é ainda a defesa.

Os Princípios Básicos de Defesa são:

RETARDAMENTO

Ao atraso deliberado do contra–ataque adversário, evitando-se o passe à frente, propiciando tempo suficiente para recompor, reorganizar e compactar a defesa, tirando espaços, chamamos retardamento.

Perdida a bola, a equipe encontra-se naturalmente aberta, exposta, sendo, assim, presa fácil para um contragolpe (razão da maioria dos gols). Deve, então, o jogador mais próximo daquele adversário que ganhou a bola, à custa de todo e qualquer sacrifício, atacá-lo, de pronto, onde quer que ele esteja, com a finalidade de impedir que progrida ou realize um passe à frente, enquanto a defesa ainda não recomposta. Além de marcar imediatamente o homem da bola, devem ser evitados passes, quer para o lado, quer para trás, que possam encontrar a defesa fora de posição mais segura.

Aquele que ataca o homem da bola deve fazê-lo rápida e eficientemente, sem a preocupação de tomar a bola, pois isto pode acarretar drible, resultando em vantagem ainda maior para o adversário. A finalidade deve ser, em princípio, impedir que o oponente jogue livremente, antes de completada a recomposição do time.

EQUILÍBRIO NUMÉRICO

Terminado o ataque, quando se buscou atacar com mais atacantes do que adversários defendendo, portanto, tendo a defender menos defensores do que atacantes opostos, deve-se buscar o reequilíbrio entre defensores e atacantes, ao que denominamos equilíbrio numérico.

O processo de recomposição defensiva e do equilíbrio numérico precisa ser cada vez mais veloz, não propiciando mais do que um átimo de tempo ao adversário, entre a perda da bola no ataque e uma segura colocação para defender.

Deve-se iniciar a busca do equilíbrio numérico a partir das posições mais vulneráveis e mais perigosas para a defesa; na faixa central do campo, laterais e, por fim, as de proteção aos zagueiros.

Diante da crescente técnica dos atacantes e da visível evolução dos sistemas ofensivos, recomendável hoje–em–dia, mais do que o equilíbrio numérico para defender. Deve–se objetivar a superioridade numérica, propiciando um jogador a mais, livre, para eventuais coberturas.

Compreensível o questionamento: como é possível num jogo de 11 (onze) contra 11 (onze), uma equipe colocar mais atacantes do que defensores adversários, quando atacando, e no momento seguinte à perda da bola, quando começa a defesa, mais defensores do que atacantes oponentes? Resposta: inteligência para assimilar todos os princípios, os de defesa e os de ataque, treinamento de todos os princípios na prática, bom preparo físico e determinação, mais do que isso, obstinação de vencedor, para jamais dar ao adversário uma única vantagem que seja. Superação!

COMPACTAÇÃO

Entende-se por compactação a redução dos espaços, dos vazios para o adversário jogar, mediante posicionamento, o mais junto possível, dos jogadores. Realiza-se pela máxima aproximação entre todos os jogadores da equipe, considerando os adversários, os setores do campo e a bola, marcando de perto a quem tenha a bola e aqueles que lhe dão suporte, além de postar-se em condição de imediata cobertura.

A idéia e a sensação que a equipe deve deixar passar ao adversário é a de que um enorme bloco, sólido, maciço e intransponível se encontre à sua frente.

As equipes bem treinadas executam a compactação em espaços de 35 (trinta e cinco) metros, no sentido longitudinal do campo, quase à perfeição, tornando inoperante a ofensiva adversária.

CONTROLE

Em conformidade com o Método de Marcação adotado, cada jogador deve manter vigilância cerrada sobre aquele a quem cabe marcar, bem como do setor sob sua responsabilidade, de modo que, a qualquer momento, possa tentar o desarme. A esse tipo de diligência, de cautela, denomina-se controle.

Quanto mais perto da própria baliza, tanto maior o controle a ser exercido.

O adversário com a bola não deve ter condições para jogar à vontade, à solta.

PRINCÍPIOS DE ATAQUE

    Atacar é a arte de ocupar espaços, ou de criá-los, quando inexistentes.

    Em ambos os casos, o êxito da missão depende da cega obediência a alguns princípios básicos que, de ordinário, são seguidos instintivamente pelos jogadores, quase sempre sem o conhecimento de causa e do porquê, tão necessários na estruturação do jogador.

Intuitiva, instintiva e empiricamente, apenas na sensibilidade, é perder-se em oportunidade e eficiência. O conhecimento de causa e o embasamento teórico, dão ao jogador uma qualidade maior na execução das suas atribuições.

    Os Princípios Básicos de Ataque são:

ABERTURA (sentido de amplitude)

Entende-se por abertura a faculdade  de uma equipe usar toda a largura do campo nos três setores, espalhando-se na hora de jogar, para dificultar a marcação. Objetiva forçar a defesa adversária  a contrariar um dos princípios de defesa, a compactação, que consiste, como já vimos, na aproximação dos defensores entre si, facilitando a marcação e coberturas, além de fechar espaços.

         A abertura descompacta a defesa adversária criando espaços e dificultando coberturas imediatas.

    O posicionamento de 2 (dois) jogadores quaisquer, bem abertos, próximos das linhas laterais, quando o goleiro ou um dos centrais tem a bola, facilita o desenvolvimento do jogo. Neste caso, um dos laterais pode avançar próximo da lateral e fazer o trabalho do 1º homem aberto, sendo o outro um meia ou um atacante.

    Chegando a bola ao meio de campo, o trabalho de abertura deve continuar a ser feito no setor de frente, no ataque, seja por 2 (dois) atacantes, 2 (dois) meias, 2 (dois) laterais, 1 (um) meia e 1 (um) lateral, 1 (um) meia e 1 (um) atacante, etc. O importante é que 2 (dois) quaisquer do time se revezem no trabalho de se colocarem o mais abertos possível, como opção de abertura do jogo, ou na criação de espaços para a penetração de companheiros, ou deles próprios.

MOBILIDADE (sentido de movimentação)

Mobilidade diz respeito à capacidade de uma equipe imprimir deslocamentos de seus jogadores, não se fixando em determinados setores do campo, dificultando a marcação e a cobertura. É uma das maiores evoluções desde os tempos do “Futebol Romântico”, quando a maioria dos jogadores atuava apenas no seu setor, com raras incursões em outros setores.

    O alvo fixo facilita ao atirador. O jogador estático é presa fácil. A movimentação, com trocas constantes de lugar, direção, lado, setor, e ritmo, dificulta a marcação e as coberturas pelos oponentes.

Para atacar com êxito, fundamental que jogador algum se deixe marcar, buscando sempre jogar em velocidade nos espaços vazios e nas costas dos adversários, ou simplesmente criando espaços para seus companheiros.

Recomendável, também, que os atacantes estejam sempre colocados de frente para a baliza adversária,  ou no máximo de lado, quando os ataques se tornam mais perigosos e a finalização mais correta.

PENETRAÇÃO (sentido de profundidade)

Penetrar significa entrar, invadir, transpor, enfim, introduzir-se, já sabemos.

Vulnerável a defesa, furado o sistema defensivo adversário pela abertura e mobilidade dos atacantes, segue-se a criação das oportunidades de marcar o gol, por meio deste princípio fundamental, pelo qual se procura atingir as proximidades da baliza oposta, ou posições para assistência e finalização, de preferência com espaço e tempo a favor.

    A penetração dá-se pelos jogadores que percebem os espaços criados pela movimentação dos dianteiros, ou mesmo pela invasão nos espaços criados pelo próprio jogador. Podem ser com bola ou sem ela.

IMPROVISAÇÃO (sentido de criação)

Princípio de liberdade de ação e inventividade que permite ao jogador dar de pronto resposta satisfatória a uma proposição repentina e incomum do jogo.

    Quando vã a obediência aos princípios básicos de ataque e de defesa, mantendo-se a equipe adversária inexpugnável, organizada e em vantagem na partida, resta apelar para a inspiração e para a intuição, fontes do entusiasmo e arrebatamento que devem motivar permanentemente o Atleta e que agem como estímulo ao pensamento e à atividade criadora.

A imaginação é a capacidade criativa do homem, além da inteligência que o diferencia dos demais animais e que a todos encanta no nosso esporte, e nós, brasileiros, nisso somos especialistas.

    A improvisação permite superar uma peça da engrenagem defensiva do oponente, desmonta o sistema de coberturas e possibilita uma vantagem momentânea que deve ser de logo aproveitada.

    Seja uma finta, abrindo novos caminhos, um drible desconcertante, acabando com a sobra, ou um passe mágico que, encontrando um caminho que antes parecia inexistente, deixa um companheiro “trocando figurinhas” com o goleiro, coitado! Jogo Bonito!

    Este princípio, como os demais, pode e deve ser treinado e aperfeiçoado à saciedade. Para tanto, a liberdade de expressão no dia–a-dia do trabalho, liberdade sem limites, mas com responsabilidade, é a “varinha de condão” que soluciona tal aparente contradição, treinar e aperfeiçoar o improviso.

    Finta, ginga, balanço, drible, tabelinhas, ultrapassagens e passes cheios de efeito, que encontram passagem onde não a há, são improvisos, e Jogo Bonito.

    Sul-americanos, de forma geral, nós brasileiros, em particular, tão bons no presente quanto no passado, na improvisação, por isto admirados, praticamente nos igualamos aos demais, por imposição de condições exigidas nos treinos e nos jogos que limitam a confiança e a possibilidade de êxito nos momentos cruciais. Quando só a magia da improvisação vence os cada vez mais rígidos e seguros sistemas defensivos, quando, também, a drástica redução do número de campos de futebol, pelo crescimento imobiliário, eliminou uma fase importante na formação dos jogadores, a do aperfeiçoamento técnico-tático livre.

    Mesmo assim, não há, no mundo, Jogadores e Treinadores com maior criatividade do que os brasileiros, capazes de tirar “leite de pedra”, gols e resultados, da infertilidade da estrutura e organização do esporte, do Futebol em particular, no país da verde e amarela Arara-Juba, que bem poderia vir a ser nossa ave-símbolo, da aurífera opulência da floração do Ipê-amarelo, a nossa árvore símbolo, e do Mico-Leão-Dourado em lamentável processo de extinção, o Brasil.

2 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de jlcleal jlcleal disse:

    Bom. Legal. Muito interessante.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Avatar de juliocesarlealjr juliocesarlealjr disse:

      Faltaram slides que não consegui inserir, mas vou tentar novamente que dão mais clareza! Bj

      Curtir

Deixe um comentário