FUTEBOL ARTE E OFÍCIO: EVOLUÇÃO DOS SISTEMAS

EVOLUÇÃO DOS SISTEMAS

    Por volta de 1860, já se contavam 11 (onze) jogadores, sendo um o goleiro e os demais distribuídos como: um “back” (recuado ou defensor), um “half” (meio-campista) e oito “forwards” (avantes ou atacantes), num esboço de Sistema que se pode enunciar como G (goleiro) – 1 – 1 – 8, ou simplesmente 1 – 1 – 8, já que alguns estudiosos costumam não enunciar o goleiro.

    Alguns anos após, em 1870, um dos atacantes do sistema anterior jogava mais recuado na linha média, numa primeira evolução, visando reforçar o meio-de-campo e, possivelmente, porque, mesmo com tantos atacantes, não eram marcados os gols em todas as oportunidades criadas, pois alguns dianteiros menos capazes atrapalhavam aos atacantes natos.

    Passou-se então ao G – 1 – 2 – 7.

    A tendência de reforçar o meio-campo e a defesa para conseguir maior equilíbrio entre os setores na busca de melhores perfórmances e resultados, e o respeito a diversos fatores, tais como: superioridade ou inferioridade técnica, jogo em casa ou fora, amistoso ou oficial, nacional ou internacional, em vantagem ou desvantagem no marcador, e outros, fez que os times fossem rapidamente evoluindo na busca da melhor distribuição das peças pelo grande tabuleiro.

    O evidente desequilíbrio entre ataque e defesa, naquela época, e que, com a visão que temos hoje, facilmente observamos, já era sentido, mormente pelos jogadores, nas disputas. A busca de soluções, levou ao passo seguinte: G – 2 – 2 – 6, por volta de 1871. O drible e o passe longo ainda eram a suprema habilidade, e o passe curto, o último recurso.

    Seguindo alterações no sentido de melhorar o jogo, tais como a adoção do travessão da baliza, em 1875; do apito do Juiz (Árbitro), em 1878; e da criação do arremesso lateral, que passou a ser cobrado com as mãos, em 1882, jogadores e técnicos experimentaram, em 1883, uma nova formação, mais tarde consagrada como o “Sistema Clássico”, que contava com 1 (um) “goalkeeper”, 2 (dois) “backs”, 3

(três) “halves” e 5 (cinco) “forwards”, o G-2-3-5.

    A primeira equipe a utilizar, com certa eficiência, este Sistema foi a da Universidade de Cambridge.

    Além da distribuição mais equilibrada, as funções de cada jogador foram definidas de forma que permitisse o bom funcionamento do sistema, com as peças se encaixando como num quebra-cabeças.

    Alcançado pela primeira vez o equilíbrio entre atacantes e defensores (5/5), sem perda da ofensividade que agrada a todos, aprimorado nos anos subseqüentes, o Sistema Clássico, pela sua consistência, teve vida longa, sendo substituído, apenas depois de 14 de junho de 1925, portanto, 42 anos após, e tão-somente porque o “International Board” achou por bem alterar a regra no que se referia ao jogador impedido de jogar (em “off-side”), que, até então, definia como de 3 (três) o número de defensores que, colocados entre o atacante e a linha-de-fundo, no momento do passe, dava ao atacante condição de jogo. Com o aperfeiçoamento do estratagema de fazer que, antes do passe, um dos defensores se adiantasse (às vezes para marcar o centro-avante adversário), deixando vários atacantes impedidos de jogar e ficando ainda um zagueiro e o goleiro para, em última instância, tentar salvar o gol, muitos ataques se perdiam, menos gols aconteciam e caiu o interesse pelo jogo. A solução encontrada veio na diminuição de 3 (três) para 2 (dois) quaisquer o número de defensores entre o atacante e a linha-de-fundo no momento do passe. A coordenação para a movimentação de avançarem simultaneamente os 2 (dois) zagueiros era mais difícil e, no erro, sobravam 5 (cinco) atacantes à frente da baliza e do guarda-arco, em condições legais.

    Neste sistema, o 2 – 3 – 5, a condução exagerada da bola, os dribles e os passes longos à frente cederam espaço aos passes curtos e médios que tiveram, nos escoceses, seus maiores seguidores. Praticavam de forma evoluída o Futebol, sendo mesmo copiados pelos criadores, os ingleses.

    Importante conhecer o passado para entender o presente e estar apto a dar o primeiro passo no futuro.

    No Futebol, o funcionamento dos Sistemas Primários (primitivos), bem como os fatores que os levaram a evoluir, pura demanda, permitem entender os Sistemas Contemporâneos, possibilitando pesquisas, estudos e práticas que levem ao Sistema do Futuro.

    Sabe-se que, na busca do equilíbrio e da melhor perfórmance os Sistemas evoluíram do G–1–1–8, passando por G–1–2–7, G–2–2–6, chegando ao Sistema Clássico, o G–2–3-5, que durou cerca de 42 (quarenta e dois) anos, ou seja, de 1883 a 1925.

    Sir Herbert Chapman, inglês, Treinador do Arsenal, reconhecido como o criador do Sistema W-M, desenho que se forma com a inovadora distribuição, recuando o centro-médio (“center-half”) do 2-3-5 para a zaga, passando a contar com 3 (três) defensores, sendo zagueiro central o recém-recuado centro-médio, forçando os zagueiros que jogavam atrás a se posicionarem mais abertos, marcando os pontas. No Sistema anterior, o centro médio possuía características muito ofensivas, correndo por toda parte, pedra basilar de toda a movimentação.

    Claro que, mantidas as demais posições, haveria muitos espaços no meio, o que foi contornado com o recuo de 2 (dois) dos 5 (cinco) atacantes, para buscarem jogo e fazerem a ligação, aproximando-se um pouco os meias remanescentes, fazendo 3-2-2-3. De fato, 3-4-3 e um quadrado no meio-campo.

    Nessa época, no Brasil, o Futebol já se desenvolvera e a maioria dos clubes acompanhou o W-M na forma em que foi criado.

    Em 1937, Dori Kuerschner, no Flamengo, e em 1940, Carlito Rocha, no Botafogo, experimentaram a formação que todos na Europa já usavam havia anos (mais de uma década) e alguns sul-americanos também, principalmente a Argentina. O insucesso na adaptação ao novo Sistema, aqui logo chamado “Defesa Cerrada”, deveu–se mormente à falta de adaptação dos centromédios daqueles Clubes à nova função, embora já nessa época não corressem mais por todo o campo como anteriormente, jogando mais plantados, mas, ainda, meiocampistas, não zagueiros, marcadores de atacantes. Além disso, aos centrais do Sistema 2 – 3 – 5, passando a jogar mais perto da linha lateral, cabia a marcação de ninguém menos do que os ágeis, velozes e dribladores ponteiros, próximos da linha lateral, também função diferente da que executaram nos muitos anos anteriores.

    Quis o destino que o Clube de Regatas do Flamengo, sob o comando do Professor Flávio Costa, passasse a utilizar uma formação diferente da dos demais clubes. Em fevereiro de 1941, convidado para uma excursão à Argentina, que à época ganhava do Brasil com freqüência e até certa facilidade, em face do maior intercâmbio que mantinha com o Futebol europeu, mesmo vindo de férias, o Flamengo aceitou o convite. Desse Hexagonal, nas cidades de Buenos Aires e Rosário, também participou o Fluminense Foot Ball Club, à época, dirigido por Ondino Vieira. Quase sem preparar a equipe, lá se foi o Mestre Flávio Costa para uma série de jogos que se confirmaram difíceis, e de resultados adversos, mas que foi ponto–de-partida para uma nova era. O aspecto mais importante da viagem foi a observação, na prática, da evolução ocorrida na forma de jogar dos argentinos, que já acompanhavam os europeus no novo W-M, com o recuo do centromédio para a posição central da defesa. Entretanto, um dos adversários, o San Lorenzo, de Almagro, utilizou o recuo de um dos meias-laterais (“side half”, “wing half”). No Flamengo, um dos zagueiros era o “Divino Mestre”, Domingos da Guia, o outro, Oswaldo, e o centro-médio, o jogador Volante.

    Embora certo de que a evolução era correta, preferiu processá-la de outra forma, já evidenciando nosso jogo-de-cintura e criatividade: optou por recuar o meia-direita Juscelino para marcar o ponta e compor a defesa com 3 (três) zagueiros, mantendo centralizado, dentro das suas características, Domingos da Guia e, no meiocampo, o centromédio Volante. No mais, o Sistema funcionava como em toda parte, com os 2 (dois) meias mais próximos e centralizados, obrigando 2 (dois) dos 5 (cinco) atacantes a recuarem para buscar jogo e poderem chegar ao ataque com a bola dominada. Com esta formação aperfeiçoada, o Flamengo chegou ao seu primeiro TRICAMPEONATO, em 42 – 43 – 44, com muito sucesso. A esse Sistema de jogo alternativo chamou-se “Diagonal”, pelo desenho tático que formava no plano teórico.

    Quase simultaneamente, o Fluminense Foot Ball Club deu o mesmo passo no sentido do futuro, à época em que seu Treinador era outro Grande Mestre do Futebol, o Professor Ondino Vieira, fazendo o recuo de um dos jogadores das meias-laterais para tornar-se o terceiro zagueiro. Fê-lo, entretanto, respeitando as características do seu elenco, como deve ser sempre, trazendo para a linha de zaga o jogador da meia-esquerda, Affonso, juntando – se com os zagueiros Guimarães e Machado, formando uma “Diagonal” diferente da do Flamengo, mas também com ótimos resultados e sucesso.

2 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de jlcleal jlcleal disse:

    Que legal. Excelente. Valeu.

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    1. Avatar de juliocesarlealjr juliocesarlealjr disse:

      Ha’ controvérsias, mas assim que aprendi! bj

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