EXXXTÓRIAXXX DO BADUZINHO – ZÉ – JULINHO
Exxxtória 3: Verídica – Baduzinho, bota chuteira no pé que vai ficar rico!
Na avenida da Carolina Machado 516 não faltava diversão, piques (tá – cola – carniça – bandeira (o que mais se assemelha ao futebol – outros); pião; balão, corda (normal e foguinho), queimado, bola de gude (uns malandrinhos usavam a mão de ganso). Triângulo – búrica (marraio feridor sou rei, olhinho, bilha, bolão; pipa – raia – cafifa [quem não soltou pipa não sabe o que é bom, nem ter coragem (pobre e sem dinheiro pra comprar pipa e linha, botar a sua no alto quando tem uma grande de rabiolão, dois 10 dos grande e cerol até a mão, dançando-bailando, se exibindo, cordonê, dibicando perto da sua…) uns baixavam e esperavam a grande ir embora, os futuros vencedores e campeões do mundo ficavam no ar tenteando para atentar o grandalhão que vinha perto, media linha pra ver se estava com folga pra dibicar/debicar e arrastar (passar o rodo, passar na linha por baixo, braçando para dobrar a linha do pobre coitado e cortá-la, cerol fino de vidro moído na linha do bonde e até do trem, cola de madeira – tem que ser folgado), a estratégia entra em jogo, não por medo do mais forte, usar de ardil: deixava o bonitão do outro lado da linha do trem medir linha, deixava ver que estava com mais e com sobra, quando então subia alto para pegar força, dibicava e partia para atacar, botar mais uma vitória na conta, mas não contava com a malandragem do oponente, que descarregava o carretel com todo o cuidado para não dar a perceber, até ficar com mais linha, sua pipa quase sumia de pequena, o grande não podia mais frear, arremeter, dançou…tubarão, pipinha dava a volta rápida por cima, pegava cabresto e rabiola grande, embolava, se garantia na braçada, chegavam à mão as duas pipas emaranhadas e, veloz como um ponta-direita, ágil e com reflexo de goleiro ainda puxava da linha solta do perdedor].
Lições de vida. Irmão, é preciso coragem!
E a bola! Indubitável o fascínio que a esfera, extensão do círculo como o Sol e a Lua, no caso do futebol a pelota, o balão, the ball, com sua aura mágica, exerce sobre o ser humano, que, desde as primeiras gerações, mesmo nas mais tenras idades, se diverte jogando por prazer. Com uma bola o homem nunca está só, e controlá-la, ou mesmo chutá-la constitui um desafio à imaginação e à criatividade. Jogo inclusivo, mais praticado no mundo, todos podem jogar, até os cegos e os perebas-pernas de pau, 4 posições (goleiro, zagueiro, meia, atacante) 11 posições/funções para adequar altura, qualidades físicas, o QIF – quociente de inteligência futebolística – e principalmente a técnica. Tantas ações por dia, o dia quase todo, todos os dias do ano, que os fundamentos de técnica melhoravam, praticando/repetindo, a inventar ou copiando os mais velhos e os mais técnicos de todas as posições.
Quando um ia convidado para jogar num clube, lá o treinador só polia os fundamentos e a técnica, iniciava a tática de grupo, deixava driblar e, ensinava os princípios da profissão.
Nesse universo havia muitas exxxtóriaxxx, como a do Seo Alves, ex-jogador do Flamengo, morador da vila e padeiro de toda a redondeza. Morava na casa 19, casado com Dona Ondina, pais do Nélio (bom jogador, um dos mais fanáticos torcedores do Fla que Baduzinho conheceu). Quando parava seu triciclo em frente à casa 11 contava, levantando a barra da calça da perna esquerda, mostrando uma cicatriz de uns 15 centímetros, dizia: essa cicatriz foi seu Avô Badu quem fez num jogo Fla x Vasco, aquele açougueiro… e ria, Badu era açougueiro mesmo antes de ser jogador, zagueiro bruto. E lá ia Seo Alves vender seu pão.
Um dia veio a informação de um Torneio em Bangu, Futebol de Campo, descalços. Montaram um time, nome já possuía, Lusitano, tinha jogadores para formar várias equipes se juntassem as 3 vilas próximas.
No dia marcado para lá se foram de trem: Bangu. 20 campos, quase carecas, futebol desde cedo até o anoitecer, jogos em todos, muitos em forma de torneio (ganhava-seguia, perdeu-tá fora, até a final). Alguns cobravam taxa para arbitragem, marcação dos campos, premiação e outras coizitas, Baduzinho jamais vira aquilo aos 12 anos, 20 campos x 22 jogadores (mais 12 reservas, 6 de cada time). Cerca de 724 jogadores em ação ao mesmo tempo, o dia inteiro). Sem contar técnicos, torcedores e olheiros. Verdadeira razão do crescimento do futebol brasileiro no mundo, em nenhuma parte tantos jogavam tanto e tão bem naquela época. Os pobres dos subúrbios começaram a substituir os da elite que trouxeram ao País o Violento Esporte Bretão. Em 50 vice em casa, em 58, Brasil Campeão Mundial, em 62 Bi, e todos se sentiam como aqueles que fizeram parte da conquista, levantando a Taça Jules Rimet, como os 16 campeões, que era o extrato, o subnitrato de todo o Universo de Jogadores, dos vários 20 campos como aqueles no Rio, quiçá no Brasil, mais os conjuntos de menos campos, ou campos isolados, as peladas, os peladeiros.
O torneio do Baduzinho começou, time jovem sendo ele de todos o mais novo, na ponta direita. Adversário regular de qualidade e média de idade maior. Lusitano venceu passando à segunda rodada. Time melhor, jogo mais duro, lateral esquerdo não achava o rápido pontinha direita. Venceram. Os poucos torcedores da Lusa e alguns que gostaram deles jogando passaram a acompanhar o timezinho-surpresa. Veio a terceira partida, time adversário cascudo, lateral pesado, Baduzinho deitou o cabelo, o time venceu e foi à semifinal. Cada fase um adversário melhor, acostumado a jogar jogos seguidos e decidir. Lusitano foi longe demais, surpresa absoluta, jogou acima do que se esperava, importante era jogar, competir, se divertir, brincaram muito, grande experiência de vida. Ficaram naquela barreira, as semis, mas felizes se reuniram após o jogo para um abraço. Já iam retornar à TERRA DO SAMBA, a Amada Madureira, de trem, quando um senhor se aproximou do time, mais especificamente de Baduzinho e vaticinou:
Baduzinho (já sabia o nome) pede para o seu Pai colocar chuteiras nos seus pés que Você vai ganhar muito dinheiro!
Little Badu nunca esqueceu tamanho e imerecido elogio. Mas tornou-se Goleiro que eventualmente também jogava na Linha!
By Jucele
Julio Leal
Treinador Campeão Mundial Sub 20 na Austrália em 1993
Foto do time com Nil, pipa, pião, corda, bola de gude, pique-bandeira, Bola.
.P.S. – Muitos anos depois, Baduzinho já Treinador de Futebol em São José do Rio Preto foi convidado por um Pai de Santo conhecido do Assistente à época e Grande Treinador Detto Pereira para ir à sua casa. Agradeceu a presença, elogiou o trabalho e, principalmente as Entrevistas onde valorizava a História e os Fatos Importantes, levava palavras positivas a todos os que ouvissem.
No final foi incisivo: Você jamais será rico, está escrito que você veio para ajudar, fazer o bem, trabalhar em Países com grande quantidades de mortos em conflitos, ajudar a melhorar e aproximar da Paz.
Disso o Torcedor em Bangu não sabia!






