4 – Anselmo – Até um cego sabia que era bom jogador. Aprovado!

Estórias, História, Fatos, Casos e Causos

4 – Anselmo – Até um cego sabia que era bom jogador. Aprovado!

         Quando cheguei ao C. R. do Flamengo, em 1976, o Clube possuía um observador técnico ou “olheiro” para a Base (costumeiramente chamada de divisões inferiores). Era o Senhor Plínio, Técnico experiente, bom olho clínico, fazia as peneiras e ia buscar novos diamantes para serem lapidados (Evandro, Cesar, Tanger, entre outros). Mas decidimos compor todo o quadro com Profissionais Professores, formados em Educação Física, especializados em Técnico Futebol na Faculdade, segundo manda a Lei, preferencialmente ex-jogadores (Carlinhos “O Violino”, Valinhos são exemplos), que estruturaram o Setor de Experiência do Clube e foram sendo promovidos de Categoria, chegando ao Profissional.

         Assim que o Treinador Plínio saiu, eu que já atuava em 3 (três frentes (Infanto-Juvenil, Juvenil e Profissional), diante de tanta procura para fazer Testes, decidi com o Supervisor Luiz Carlos organizar o Processo de Experiência às segundas-feiras, uma vez por mês, em meu dia costumeiro de folga. Conseguimos o campo do Esporte Clube Cocotá, na Ilha do Governador, accessível a todos os Bairros e por ser próximo de minha residência, além de o Clube do Seo Toninho, o maior Presidente que conheci, me oferecer todo o apoio necessário, gratuitamente, era o Clube que eu frequentava, onde joguei e iniciei minha carreira de Técnico (que em 1993, por Lei, virou Treinador).

         Eram 110 jovens jogadores cada segunda-feira do mês, que se inscreviam na Secretaria do Fla, sem nada pagar, até que a ficha com 10 espaços por posição fosse completada, passando-se então o pretendente para o mês seguinte. Quase 1.500 jovens e seus sonhos por ano. O tempo para mostrar todas as qualidades não era grande, prestávamos toda a atenção para não cometer injustiças, o índice de aproveitamento era muito pequeno, pois as equipes de competição possuíam os melhores selecionados entre os melhores de todas as ruas de todo o Brasil. Mas era necessário fazer o trabalho, pois de quando em vez uma pepita de Ouro ou um Diamante bruto era encontrado.

         Num desses Testes, antes do treino começar estava eu conversando com o Técnico Walter Miraglia, que me auxiliava e tinha ótima visão, grande experiência no assunto, funcionário antigo do Flamengo, ex-jogador, quando se aproximou um Senhor de bengala, óculos escuros, andar de quem não enxergava, com um jovem ao lado. Apresentou-se (chamava-se Trajano), que era jornalista esportivo, cego e veio trazer o jogador Anselmo, José Antonio Cardoso Anselmo, nascido em 20 de Março de 1959, destaque em Nova Friburgo, alto, forte, cheiro de gol, goleador, bom com ambos os pés e ótimo cabeceio, além de obediente e dedicado.

         Pensei comigo mesmo: Anselmo já está aprovado, pois até um senhor cego pode ver suas qualidades, mas para ser justo, colocamos o jovem pretendente para treinar: o fez muito bem, no acanhado campo do Cocotá, boa técnica geral, movimentação inteligente, força, raça e gol. Tudo o que o Fla precisava.

         Foi, imediatamente, enviado para a categoria de sua idade, no time de competição, onde ajudou em diversas conquistas da Base, como o bi em 79 e 80 (categoria chamada a partir desse ano, Juniores, chegando ao Profissional do Coutinho, depois Carpegiane, quando o Mengão teve importantes conquistas sua Fase Áurea, de 77 a 82.

         Inusitada sua participação na conquista da Libertadores da América que abriu caminho para a conquista do Mundial no Japão. Jogo difícil no Chile, contra o Cobreloa do temível zagueiro Mario Soto que espanava e espantava todos da área. Ouvi em entrevistas que lá pelas tantas o Treinador Carpegiane chama o Anselmo do banco e sussurra no seu ouvido: entra lá, vai direto no Mario Soto e sem que ninguém veja dá um murro nele. Até parece que o Carpegiane soube da definição do Jornalista cego (Seo Trajano) que me apresentou Anselmo: Bom, raçudo, forte e obediente. Soco dado, grande confusão, o zagueirão perdeu a moral e a pose, e o Mengo conquistou o direito de ir e ganhar seu único título mundial, no jogo em 81, contra o Liverpool, no Japão, com uma geração maravilhosa, um time que jogava por música, como as ondas do mar. Mas isso fica para outra estória que posso contar.

         O Setor de Experiência foi aperfeiçoado pelo Valinhos, depois pelo Carlinhos, em campo próprio, 3 vezes por semana, apenas 4 por posição, o ano inteiro, no primeiro dia os 44 entre eles, no segundo os 22 melhores e no terceiro da semana jogo-treino contra uma equipe de competição. E depois, ainda, o Projeto SOMA do Dr. Serafim. Muitos resultados vieram dali.

         Até hoje me regozijo dos aprovados em condições precárias e pouco tempo de treino, e com tristeza no coração lembro dos dispensados, sempre com uma palavra de apoio, pois ali encerrava-se um sonho de atuar na Nação Rubro-negra. Oro por todos até hoje, como que em pedido de desculpa.

         Anselmo jogou no Fla, no Ceará e no exterior.

Sangue de Campeão!

By Jucele

Julio Leal

Treinador de Futebol Campeão do Mundo Under 20 na Austrália em 1993

Maio de 2022, Up date Setembro 2023

Site: www.julioleal.com.br

Email: julioleal@gmail.com

You Tube: @julioleal5218

Deus o abençoe!

Deixe um comentário